observatório das metrópoles

Artigo

Os desafios metropolitanos de Goiânia nos anos 2000

Por: Adão Francisco de Oliveira
Graduado em História, mestre em Sociologia, doutorando em Dinâmica Sócio-Espacial / Geografia pela UFG. Pesquisador do Observatório das Metrópoles – núcleo de Goiânia.

Um fenômeno recente marca o desenvolvimento de Goiânia nos anos 2000: a reprodução de enormes diferenças e desigualdades na ocupação e uso do solo urbano. Por toda a cidade se vê o surgimento de condomínios horizontais fechados de luxo, como os Jardins na Região Sudoeste, o Alphaville Flamboyant na Região Sudeste, o Aldeia do Vale na Região Norte, o Condomínio do Lago na Região Oeste, o Alto da Boa Vista na Região Noroeste/Mendanha dentre outros, além de shoppings e grandes redes de supermercados. Mas também se vê surgir ou perpetuar bairros de população carente resultantes de experiências conflituosas, como o Madre Germana e o novíssimo Grajaú, na Região Sudoeste, o Vale dos Sonhos, na Região Norte e o Jardim Primavera, na Região Noroeste. Dessa forma, ao se constatar em todas as regiões da cidade o desenvolvimento de processos semelhantes, confirma-se o movimento centrípeto iniciado em Goiânia nos anos de 1990, num processo de descentralização de suas principais dinâmicas.

Isto tem a ver com a saturação do Centro da cidade, que “implode-explode” – de acordo com a lógica do filósofo francês Henri Lefebvre – pela intensa concentração de contradições e contraditórios (pessoas, automóveis, estabelecimentos de negócios, condomínios verticais, centro administrativo, serviços públicos, pobres, classe média e ricos, residentes e passantes etc.). Então, tornou-se necessário desafogar o Centro e este movimento foi iniciado pelo poder público (na transferência de determinados espaços administrativos e de serviços públicos para outros lugares) e pelos empreendedores capitalistas (os empreendedores imobiliários, na definição de novos espaços para ocupação e uso das classes média e média-alta e os do comércio de bens de consumo e de lazer, na descentralização tópica dos supermercados, shoppings, boates etc.). Neste movimento centrípeto, Goiânia se confirma como uma metrópole e alguns municípios vizinhos se conurbam ao seu espaço, onde as áreas ocupadas atingem os limites de sua fronteira e a separação entre um município e outro torna-se imperceptível.

Assim, apesar de Goiânia ser hoje, em certa medida, uma cidade descentralizada nas experiências dos usos e ocupações do solo, reproduzindo em cada recanto referências, diferenças e desigualdades – isotopias e heterotopias -, em algumas regiões a predominância de determinados usos apresenta grafias para a cidade. Neste sentido, na leitura da cidade como um todo, quatro regiões se contradizem mais, o que interessantemente produz uma outra característica: a marcação de um “X” na cidade. Historicamente, as duas primeiras regiões são a Sul (predominantemente referência) e a Noroeste (predominantemente desigual), marcando uma linha imaginária diagonal na cidade. As duas outras são a Região Sudeste (predominantemente referência com o principal empreendimento imobiliário hoje, o Alphaville Flamboyant) e a Região Sudoeste (predominantemente desigual com os assentamentos Madre Germana e Grajaú), marcando outra linha imaginária diagonal na cidade, agora no sentido contrário. Daí o “X”.

O grande desafio da Região Sudoeste hoje é não se tornar mais um depósito de assentamentos para a população pobre abandonados pelo poder público, como aconteceu na Região Noroeste ao longo dos anos 80 e metade de 90. Pela tendência, é isto que está acontecendo, porém com menor intensidade em relação àquela outra, e isso ocorre porque o crescimento demográfico em Goiânia diminuiu significativamente em relação à década de 1980. Mas exatamente como aconteceu na Região Noroeste, acontece hoje na Sudoeste, ou seja, a população carente assentada (às vezes em áreas rurais, o que é um crime ambiental) é apartada do conjunto da cidade e confinada em suas áreas limites, desprovida de perspectivas, destituída de infra-estrutura e distanciada dos serviços públicos básicos. Ela é radicalmente segregada. Entre os assentamentos e as áreas de construção contínuas da cidade, glebas de terras e terrenos desocupados e sem uso à espera de valorização, negócio certo depois dos novos assentamentos, quando houver a extensão de serviços públicos e infra-estrutura por parte do Estado.

Portanto, contornar esta tendência é desafio não só para a população da Região Sudoeste, mas também para toda a população da cidade, que deve estar vigilante às ações do poder público e dos empreendedores capitalistas que geram exclusão e segregação. Para que as intensas desigualdades explicitadas nas formas de ocupação do solo não produzam mais violência e marginalidade, é fundamental que a população, principalmente a pobre, se mobilize, se articule e se organize. Deve-se, com isso, construir um quadro de referências que iniba em especial a perversa prática do planejamento excludente, ou seja, aquele que, através da ação do Estado, contempla exclusivamente os interesses capitalistas e não incide em integração social e econômica para as camadas marginalizadas, satisfazendo aos princípios da reforma urbana.

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